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    Pedro Leal

    Técnico Apícola

    A Apicultura no Inverno

    A chegada do Outono marca o aproximar do fim de mais um ano, mas o trabalho do apicultor nunca tem fim...

    É comum pensar-se que as abelhas param a sua actividade no Inverno e que por isso acabam as preocupações do apicultor, mas isso não é verdade. Na verdade a rainha, com a diminuição da temperatura e uma menor disponibilidade de floração, diminui bastante a sua actividade chegando, por vezes, a parar por completo a postura durante algum tempo (diapausa), mas num clima temperado como o nosso as abelhas normalmente continuam as suas tarefas durante o Inverno, embora com muito menor intensidade, procurando florações, recolhendo água e fazendo os necessários voos higiénicos. Perdem-se por isso muitas abelhas no exterior nessa altura do ano, especialmente em dias chuvosos e mais amenos, o que pode levar ao enfraquecimento das colónias.

    Uma das regras de ouro da apicultura é evitar ter colónias fracas, especialmente no Inverno. Como é sabido uma colmeia forte produz mais do que duas ou três colmeias fracas (regra de Farrar), e além disso colmeias fracas no Inverno terão um arranque muito mais lento no início da floração, tornando-se por vezes difícil obter destas alguma rentabilidade pois, devido à pouca força de trabalho disponível, acabam por não tirar o devido partido das principais florações.

    Nunca esquecer que as visitas ao apiário durante o Inverno nunca se devem fazer em dias muito frios e a horas tardias: o apicultor pode sempre optar por aproveitar dias soalheiros durante a hora de almoço para verificar alguns pormenores dentro da colmeia. Se a essa hora a temperatura estiver acima dos 12ºC, céu limpo e sol, não haverá grande problema de fazer uma rápida inspecção das colmeias, para poder fazer algumas manutenções. Mesmo não sendo possível um exame minucioso ao interior da colmeia, que levaria a que o ninho arrefecesse em demasia, causando mais prejuízos do que benefícios, é fundamental ir tendo ao longo o Inverno a noção do comportamento das suas colónias, para poder actuar atempadamente e em conformidade.

    Antes da entrada no Inverno é a altura ideal para fazer a limpeza à vegetação do seu apiário pois nessa época a maioria das plantas param o seu crescimento, ficando por isso o apiário limpo por mais tempo, evitando o ensombramento e excesso de humidade que pode trazer problemas ao material e às abelhas. Deve proceder-se à limpeza e desinfecção de fundos e ninhos com a ajuda do formão e do maçarico, removendo também as ceras em más condições e substituindo o material danificado, de modo a proporcionar às colónias um ambiente mais higiénico durante os meses de frio.

    É este o momento de fazer os preparativos para a nova época e proceder às encomendas de materiais, colmeias e ceras, para que estejam disponíveis no arranque da Primavera, quando serão necessários, podendo ser aproveitadas as noites, mais longas nesta época, para realizar pequenas reparações do material e substituição dos arames danificados dos quadros.

    O espaço disponível na colmeia deve também ser correctamente dimensionado ao tamanho do enxame, sendo sempre preferível transferir um enxame pequeno para um núcleo do que deixá-lo num ninho com demasiado espaço, onde é mais difícil manter a temperatura, o que significa um maior consumo de reservas, e maior dificuldade em ultrapassarem o Inverno.Deve-se assegurar que os quadros dos extremos estão repletos de reservas de modo a criar uma barreira térmica contra o frio do exterior. Caso se verifique que a colónia não tem reservas suficientes para o Inverno terá que ser fornecido alimento de manutenção, na forma de pasta, adicionando de preferência alguma proteína (farinha de soja, levedura de cerveja, etc.), de forma a garantir a sua sobrevivência até à próxima floração.

    Na entrada do Inverno pode acontecer algumas colónias perderem a rainha por tentarem, sem sucesso, substituir a rainha velha muito tardiamente. Nesses casos a solução será juntar esta colónia a outra recorrendo, por exemplo, ao método do jornal, que consiste na colocação da colónia órfã em cima de outra com rainha, separadas por uma folha de jornal, de modo a que, enquanto roem o jornal, se misturem e se ambientem ao cheiro (feromona) da nova rainha evitando assim que lutem entre si. Entre três a cinco dias após a colocação de um ninho em cima do outro, estamos em condições de voltar a organizar a colmeia, reduzindo-a apenas a um ninho. Em colónias mais fracas deve-se também mudar para a entrada de Inverno o que facilita o aquecimento da colónia e dificulta a pilhagem em caso de escassez de alimento.

    Quando estamos a cerca de 45 dias do início de uma floração abundante devemos começar a estimular as colmeias para o arranque da floração, utilizando para isso uma alimentação líquida, tendo sempre em atenção que esta operação apresenta riscos, pois este tipo de alimentação estimula o aumento de população o que pode gerar fome no caso de, na altura de floração as abelhas não conseguirem trabalhar devido às condições atmosféricas, ou da floração ser destruída pelo tempo, como tem acontecido nos últimos anos à floração do incenso.

    Como contrapartida a todos os benefícios que o apicultor obtém das suas abelhas, é também a sua obrigação ampará-las nos momentos mais difíceis, proporcionando-lhes as condições necessárias à realização das suas tarefas, das quais todos, directa ou indirectamente acabamos por beneficiar.


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